Reflexões

Uma relação íntima e pessoal com Jesus

Autor:

Por: Pe. José Assis Pereira Soares, Vigário Geral

Neste IV Domingo da Páscoa somos chamados a fazer a experiência pascal do Cristo Ressuscitado que se nos apresenta como o Bom Pastor.

Jesus disse de si mesmo: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11.14). A imagem do pastor que guia suas ovelhas era familiar a Israel, povo de origem nômade e pastoril. No Antigo Testamento se explica a conduta de Deus com seu povo com a atuação de um pastor. Na profecia de Ezequiel o Senhor diz: “Procurarei as ovelhas perdidas, trarei de volta aquelas que se desgarrarem, curarei as doentes, fortalecerei as que estiverem fracas. Guardarei as ovelhas gordas e fortes e as apascentarei com justiça”. (Ez 34,16)

Jesus enviado por Deus assume o papel do bom pastor. No Evangelho de hoje (cf. Jo 10,27-30) Ele descreve através de uma parábola a relação entre o pastor e as ovelhas, entre Ele e as pessoas. Depois ressalta o que Ele, enquanto pastor faz por suas ovelhas e o que estas podem esperar dele.

Sobre a relação recíproca entre Jesus e os seus disse: “As minhas ovelhas escutam minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10,27). No evangelho de João, o “conhecer” quase se identifica com o “crer”. A fé é uma relação pessoal entre aquele que crê e Jesus. Na linguagem biblica a palavra “conhecer” tem conotações mais profundas do que no nosso uso comum, significa não tanto um saber intelectual. O “conhecer”, implica uma relação íntima, pessoal e profunda; o amar, o sentir afeto, o desejar o bem da pessoa amada.

Jesus conhece os seus. Frente a Ele, que é o Pastor, não há uma massa anônima, uma multidão. Ele conhece a cada um em particular e com cada um, mantém uma relação pessoal. Anteriormente já havia declarado: “Eu sou o bom pastor, conheço minhas ovelhas e elas me conhecem, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai” (Jo 10,14).

Um traço essencial do bom pastor é que ele conhece os seus e os seus o conhecem. Jesus equipara esta relação à que existe entre Ele e seu Pai, onde chega ao seu ponto máximo, o conhecimento e o amor recíprocos, a intimidade e a familiaridade. Não é possível conceber uma relação mais pessoal e cordial. Jesus está sempre disposto a uma relação assim conosco. De nossa parte pede unicamente que aceitemos esta relação e a intensifiquemos. Não é um senhor distante e inacessível, mas sim um amigo e irmão próximo e confiável. Amizade e fraternidade devem caracterizar nossa relação com Ele.

Quanto mais uma pessoa é conhecida por Jesus, em virtude do caráter recíproco de toda relação pessoal, tanto mais entra na sua intimidade, lhe escuta com atenção e lhe segue com fidelidade e alegria.

Jesus tem confiança em suas ovelhas, porque as ama e sente-se amado por elas. Serão suas ovelhas, pertencerão a Ele e chegarão a participar de seu amor e de sua solicitude só os que escutam a sua voz e o seguem. Nós entramos em comunhão com Jesus, nosso pastor, se o escutarmos e o seguirmos. Com sua Palavra, Jesus nos revela a face misericordiosa de Deus, nos comunica que Deus é seu Pai e que Ele está unido a Deus do modo mais íntimo possível: “Eu e o Pai somos um!”(Jo 10,30).

Deus, o Pai e Jesus, o Filho, têm uma mesma vida, tudo é comum entre eles. O Pai comunicou ao Filho tudo o que lhe pertence e o que lhe constitui. A partir desta comunhão de vida, Jesus conhece o Pai de modo pleno e perfeito, pode fazer-nos conhecer a pessoa do Pai, sua atitude para conosco, seus projetos e sua vontade a nosso respeito. Mas só entramos em uma relação viva com Jesus se o escutarmos, se nos esforçarmos por compreender sua revelação sobre Deus e se nos confiarmos nele e assim também lhe seguirmos. Ele não obriga ninguém a fazer parte do seu rebanho. Conforma-se com falar e convidar. Dependem de nós abrirmos-nos a Ele, confiarmos nele e entrar assim em comunhão com Ele.

Deus nos fala e quer estabelecer uma relação pessoal com cada um de nós, porque nos conhece a cada um em particular. Nós temos uma capacidade limitada de conhecer as pessoas. Os que usamos redes sociais, Internet, WatsApp, Instagram, Facebook etc, temos uma lista de amigos e contatos que pode chegar às centenas de pessoas, alguns até mais, no entanto, de todas elas não podemos dizer que as conheçamos, de fato são poucas as pessoas às quais conhecemos verdadeiramente em profundidade. Porém, Deus tem a capacidade de conhecer-nos a todos pessoalmente, por isso é Deus. E nos conhece em particular, nos chama pelo nome, e sabe de nossa vida e de nossa intimidade, antes inclusive de que a contemos, porque nos criou, deixou suas marcas em nós, seu GPS (Sistema de posicioamento global ou sistema de localização geografica por satelite) e sabe como localizar-nos e o que necessitamos em cada momento. Nos conhece inclusive melhor que nós mesmos, e precisamente porque nos conhece bem, nos fala e nos chama a segui-lo.

Jesus assinala hoje também o que, como bom pastor, faz pelas suas ovelhas: “Eu lhes dou a vida eterna e elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão” (Jo 10,28). Assim assegura-nos o que nenhum ser humano pode prometer a outro, por mais que o ame e se preocupe com ele: a vida eterna, a preservação de todo mal, a comunhão indestrutível.

Isso é o que movia as pessoas que se encontravam com Jesus a crer nele. Na confiança está a raiz de nossa fé. Confiamos nele e o seguimos porque sabemos que no seu chamado há um convite a ser felizes de verdade, não a uma felicidade passageira que nos dá as coisas do mundo, mas a FELICIDADE com letras maíusculas.

Quando descreve a finalidade da missão recebida do Pai, Jesus disse: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Tudo o que faz responde ao desejo de mostrar-nos o que nos destrói e mata, de indicar-nos o caminho que conduz à vida, de dar-nos a vida eterna. Jesus não quer impor-nos nenhum peso, nem tornar-nos a vida difícil. Não podemos alcançar uma adequada relação com Ele e sua Palavra, se não estamos convencidos de que tudo o que diz e faz é para levar-nos à vida em plenitude, à vida eterna.

Em sua oração final, Jesus disse ao Pai, a propósito de si mesmo: “Ora, a vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o Deus único e verdadeiro e aquele que enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17,2-3). Explica-se aqui que a “vida eterna” não é um espaço de tempo vazio, infinito, que devamos encher com alguma atividade, mas sim, que consiste no conhecimento do Pai e do Filho, na relação confiada com Deus, na participação da vida de Deus. Na vida eterna continuará e chegará à perfeição a relação que Jesus havia descrito ao dizer: “Eu conheço as minhas ovelhas e elas me conhecem” (Jo 10,14).

Podemos confiar em Jesus sem vacilações; podemos escutá-lo e segui-lo, podemos nos deixar pastorear, conduzir por Ele, estar com segurança em sua mão de onde ninguém nos poderá roubar.

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