Reflexões

Pobres e surdos

Autor:

Por: Pe. José Assis Pereira Soares, Vigário Geral

Jesus hoje torna realidade as palavras do salmo 145: “O Senhor abre os olhos aos cegos, o Senhor faz erguer-se o caído; o Senhor ama aquele que justo, é o Senhor quem protege o estrangeiro. Ele ampara a viúva e o órfão, mas confunde os caminhos dos maus!”

Esta é a Boa Notícia: Deus está a favor dos fracos, dos pobres e necessitados. Naquela época os pobres eram os órfãos e as viúvas, que não tinham nenhuma pensão para manter-se. Quem são hoje os pobres e os oprimidos?  O que significa ser pobre neste século XXI? O Documento de Aparecida refere-se à pobreza no sentido corrente da palavra, ou seja, como insuficiência de bens materiais. Mas, também o documento faz um alargamento semântico da categoria pobre: “A globalização faz emergir em nossos povos, novos rostos pobres. Com especial atenção e em continuidade com a Conferências Gerais anteriores, fixamos nosso olhar nos rostos dos novos excluídos: os migrantes, as vítimas da violência, os deslocados e refugiados, as vítimas do tráfico de pessoas e sequestros, os desaparecidos, os enfermos de HIV e de enfermidades endêmicas, os toxico-dependentes, idosos, meninos e meninas que são vítimas da prostituição, pornografia e violência ou do trabalho infantil, mulheres maltratadas, vítimas da violência, da exclusão e do tráfico para a exploração sexual, pessoas com capacidades diferentes, grandes grupos de desempregados (as), os excluídos pelo analfabetismo tecnológico, as pessoas que vivem na rua das grandes cidades, os indígenas e afro-americanos, agricultores sem terra e os mineiros.” (DAp 402)

Pensemos também nos imigrantes que chegam da Libia e de outros lugares fugindo do jihadismo e depois são “repartidos” por diversos lugares da Europa ou devolvidos a seus lugares de origem. Pensemos nos 70 mortos em um caminhão frigorífico fugindo da guerra na Siria. Pensemos nas mulheres e crianças explorados. Pensemos nos anciçãos que vivem sós.  Pensemos nas mulheres e homens vitimas da “violência de gênero”. Pensemos nas crianças de famílias desestruturadas quem tem de tudo menos o que necessitam de verdade. Há tantos pobres e oprimidos à nossa volta! Sem duvida, Deus escolheu aos pobres do mundo para fazê-los na fé herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam.

Em sua carta o Apóstolo Tiago (cf. Tg 2,1-5)nos diz que nós, os membros da comunidade cristã, tendemos espontaneamente a prestar nossa melhor acolhida aos que trazem “anel de ouro”, enquanto isolamos e não prestamos atenção ao pobre. Já sabemos quão bem marcados já estão os pontos honrosos em nossas celebrações, e também os postos desonrosos.

Jesus prestava atenção especial aos excluídos, aos incomunicáveis, aos invisíveis. Temos um exemplo disso no evangelho de hoje. O evangelho de São Marcos (cf. Mc 7,31-37) nos apresenta um milagre menor, aparentemente é somente, a cura de um surdo. Jesus me parece, deu um especial significado à cura deste surdo. Há algo de especial neste fragmento evangélico que, sem duvida, leva a pensar na misericórdia do Senhor diante do estado de isolamento do surdo, diante da sua dificuldade absoluta de comunicar-se. Com sua ação sanadora, Jesus possibilitava àquele surdo escutar a proclamação do Reino de Deus e para que, depois, ele mesmo, fosse transmissor da Boa Nova, do Evangelho, a outros irmãos e irmãs.

No centro do evangelho de hoje há uma pequena palavra, muito importante. Uma palavra que no sentido profundo, resume toda a mensagem e a obra inteira de Jesus. O evangelista Marcos apresenta-a na mesma língua de Jesus, na qual Ele mesmo a pronunciou, de modo que a sentimos ainda mais viva. Esta palavra é “effathá”, que significa “abre-te”. O significado histórico, literal desta palavra é que aquele surdo mudo, graças a intervenção de Jesus, “abriu-se”; antes estava fechado, isolado, para ele foi uma “abertura” aos outros e ao mundo, à fé. É isto que Jesus veio fazer, sua missão é “abrir”, libertar, para nos tornar capazes de viver plenamente a relação com Deus e com os outros.

Também nós necessitamos abrir nossos olhos e nosso coração a Deus e aos irmãos. Necessitamos por em prática a compaixão e a misericórdia. Abre-te aos que necessitam tua amizade, abre-te ao que necessita do teu carinho, abre-te ao que necessita que alguém lhe escute, abre-te a esse irmão que é para te tão pesado, abre-te ao enfermo que espera tua visita no hospital ou em sua casa, abre-te àquele que não te cumprimenta, abre-te àquele que está chorando com lágrimas de desalento e solidão. Também te diz: escuta os gemidos do triste, escuta os lamentos daquele que a vida trata injustamente, escuta àquele que não pode nem falar, mas te está dizendo tudo com seus gestos. Não sejas mudo nem surdo, deixa que o Senhor abra tua boca e teus ouvidos. Dá-nos, Senhor, ouvidos atentos e línguas desatadas!

É precisamente sobre a surdez e a mudez, esta atitude de isolamento insensível o que nos deve levar a meditar este evangelho como atitude que não é própria de um cristão. A surdez e a mudez insolidárias devem ser erradicadas totalmente do meio de nós.

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