Reflexões

Palavra, espírito e vida

Autor:

“Palavras, palavras, palavras

Eu não aguento mais

Palavras, palavras, palavras

Você só fala, promete e nada faz

Palavras, palavras, palavras…” (Gonzaquinha)

Estas palavras do poeta expressam os sentimentos de uma sociedade saturada de palavras. Em uma reunião introduziram o orador dizendo: “agora concedemos a palavra a…”. No fundo da sala alguém comentou: “Palavras, palavras, o que esta pessoa pode dizer-nos senão, só palavra!”

Estamos rodeados, envoltos de palavras… A televisão, o rádio, os meios de comunicação, as mídias sociais, a vida familiar, tudo são palavras e palavras.

Há muitos modos de falar, para não dizer há todos os modos de falar, aceitáveis ou não, resultando muitas vezes como fruto a perda da credibilidade nas palavras e da falta de coerência entre o que se diz e o que se faz. A confiança, consequência lógica da coerência entre o dito e o feito, mede o índice de adesão a uma causa, fortalece a fé nela e aumenta o crer.

Por isso, o bom uso das palavras, tanto as que dizemos como as que ouvimos, é algo importantíssimo para nossa saúde mental e espiritual. Contanto que as palavras que ouvimos e dizemos sejam verdadeiras e sinceras, mas isto só não basta; muitos terroristas e políticos dizem palavras sinceras e verdadeiras, mas não são palavras que dão aos que as ouvem espírito e vida. Porque algumas palavras sinceras e verdadeiras que deveriam ser ditas para dar espírito e vida são, na realidade, palavras demasiado egoístas ou muito materialistas, que só buscam o interesse daquele que as diz.

Para que as palavras deem espírito e vida devem ser, além de sinceras e verdadeiras, palavras que busquem em primeiro lugar o bem daquele que as ouve. Também pode ocorrer, ás vezes, que o que ouvimos nos resulte simplesmente, impossível de crer. Eu creio que isto foi o que ocorreu com os ouvintes de Jesus, tal como nos conta o evangelho (cf. Jo 6,60-69).

Estamos ante o final do discurso de Jesus sobre o “pão da vida”. As palavras de Jesus de que é necessário comer e beber seu corpo e seu sangue decepcionou e escandalizou a maioria dos seus ouvintes. Eram exigentes e radicais de mais! Alguns deles entendiam essas palavras em sentido extremamente material. Pedro toma a palavra e manifesta sua confiança absoluta em Jesus: “Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. Nós acreditamos e sabemos” (Jo 6,69). Esta resposta do Apóstolo recupera a expressão de Jesus: “As palavras que eu vos disse são espírito e vida” (Jo 6,64) isto é, constitui a única orientação que pode dar sentido pleno a vida. Na figura de Pedro os discípulos aceitam a proposta de Jesus, apesar das dificuldades ambientais e apesar do paradoxo da mesma mensagem. Sua resposta constitui uma opção de fé e credibilidade em Jesus: “Nós acreditamos e sabemos”.

Pedro sabe que em Jesus pode confiar e que só Ele tem palavras de vida. Também para Pedro era verdade que tudo o que Cristo lhes havia dito sobre o pão da vida, tomado literalmente, era algo muito difícil de crer, era “um modo duro de falar”, mas, se eles não acreditarem em Cristo, se perguntava Pedro, em “quem iriam crer, que fosse mais sincero e melhor que Ele?

O mesmo pode acontecer com os cristãos do século XXI: seguir hoje a Cristo nos parece uma decisão difícil e arriscada, mas se não apostamos em Cristo, em quem podemos apostar? Nos políticos ou nossos cientistas, ou ainda nos que nos falam todo dia, nos meios de comunicação? Depois de tudo, a verdade do Evangelho de Cristo segue sendo para nós mais confiável que qualquer das outras meias verdades que ouvimos todos os dias.

Trata-se hoje de uma atitude frequente a respeito das palavras. Não acreditamos nas palavras, não cremos que nos comuniquem coisas serias. Imprimem-se milhares de palavras, mas a maior parte não se leem. Por outro lado, as palavras ouvidas no rádio ou na televisão são esquecidas rapidamente. Depois de certo tempo, até as negam quem as pronunciou com tanta solenidade.

Tinha outro valor as palavras dos sábios, quase eram adágios, repetidos durante tantos séculos! No primeiro milênio cristão, encontramos um documento espiritual de grande importância que compõe a antologia dos padres recolhendo o que disseram esses famosos “padres da Igreja”. Suas sentenças se repetiram, foram escritas e se conservaram em séculos sucessivos, constituindo o que hoje chamamos a “patrística”. Se as palavras humanas, ao menos alguma vez, teem tal força, quanto mais devem ter as palavras divinas da Escritura. Por isso a leitura da Palavra de Deus, sua celebração na Liturgia é importantíssima.

Recordamos o que nos disse Cesário de Arles (séc. VI): “O que tem maior valor, segundo vós. A palavra de Deus ou o Corpo de Cristo? Se quiserdes responder com verdade, deveis certamente dizer que a Palavra de Deus não é menos valiosa que o Corpo de Cristo. Desse modo, que cuidado nós pomos, quando nos dão o Corpo de Cristo, em não deixar que das nossas mãos, caia por terra nenhuma das suas parcelas! De modo semelhante devemos ter idêntico cuidado a fim de não deixarmos escapar do nosso coração a palavra de Deus que nos é dirigida, pensando ou falando doutra coisa; com efeito, aquele que escuta com negligência a palavra de Deus não é menos culpado do que aquele que, por sua inteligência, permite que o Corpo de Cristo caia por terra.” E São Jerônimo (séc. V) falando do mistério da Palavra como da Eucaristia que levam, os dois ao mistério de Cristo diz que eles têm a mesma importância: “Quanto a mim, penso que o Evangelho é o corpo do Cristo e que a Sagrada Escritura é sua doutrina. Quando o Senhor fala em comer sua carne e beber seu sangue, é certo que fala do mistério da Eucaristia, entretanto seu verdadeiro corpo e seu verdadeiro sangue são também a palavra da Escritura e sua doutrina”.

A mesma presença do Cristo que habita a Escritura, habita também a Eucaristia. É, pois, com razão que podemos falar de uma presença real do Cristo na Palavra, tão real quanto a da Eucaristia. A liturgia da Missa se compõe de duas partes: a liturgia da Palavra e da Eucaristia. A leitura é a melhor preparação para receber Cristo na Eucaristia e, por outro lado, com a Eucaristia estamos mais unidos a Cristo e, portanto, compreendemos melhor suas palavras. Por isso hoje Pedro ao dizer: “Tu tens palavras de vida eterna”, é a Palavra como princípio de vida eterna e na Eucaristia, o mesmo pão vivo descido do céu destrói as fronteiras da morte e dá a vida eterna (Jo 6,51): “Parti o mesmo pão, escreve Inácio de Antioquia (séc. II), este pão é remédio de imortalidade, antídoto contra a morte, e faz viver eternamente.”

Os sinais que Jesus fazia e não esqueçamos que Ele segue fazendo hoje, não bastou para que seus discípulos o seguissem sem duvidas. Hoje o ruído, esterno e interno, este de maneira mais intensa, afogam a palavra e consequentemente a confiança e a credibilidade nela. Muitos que se dizem cristãos, mas não ouvem nem escutam essa Palavra de Deus e não se dispõem nem em aceitá-la ou recusá-la, são-lhe indiferentes. A escuta atenta da Palavra, causa no ouvinte confiança na pessoa que fala, Jesus e naquilo que diz. Rompe a indiferença. Já na Eucaristia recebemos a força necessária para por em prática as palavras de Cristo e dizer, numa sociedade de tantas palavras, como santo Antônio de Pádua (séc. XII): “Nossa vida está cheia de belas palavras e tão vazia de boas obras, que cessem os discursos e falem as obras”.

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