Reflexões

Eis o tempo de conversão

Autor:

Por: Padre José Assis Pereira Soares, Vigário Geral

Neste Terceiro Domingo da Quaresma a Liturgia centra-se no tema da conversão: “Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos” (Lc 13,3) Sim, porque a conversão não está ligada somente à Quaresma, mas deve marcar toda a nossa vida; na verdade, ela pertence essencialmente a nossa vida.

O importante é que, todos nós avaliemos se estamos aproveitando este tempo da Quaresma. Quais são os nossos propósitos de conversão? Temos avançado em algo? Temos nesta Quaresma do Ano da Misericórdia socorrido alguma das necessidades materiais ou espirituais dos irmãos e irmãs mais necessitados com as “obras de misericórdia”? Temos renunciado ao que é supérfluo? Somos conscientes da variedade de oportunidades que Deus nos dá para realizar-nos?

Converter-se quer dizer dirigir-se a Deus. Quando me volto a Deus e caminho em sua direção, encontro meu ser verdadeiro, meu eu real. Para Jesus a conversão consiste em crer no Evangelho, na boa nova da proximidade salutar e amorosa de Deus.

O verdadeiro significado da palavra grega “metanoia” (conversão), é modificar o sentido, pensar diferente, ver Deus em nossas vivências cotidianas quando Ele nos fala.

O encontro de Moisés com Deus no Horeb (cf. Ex 3,1-8a.13-15) ajuda-nos a compreender todo o caminho que devemos percorrer para verdadeiramente nos convertermos. Caminho que passa pela experiência do encontro ou do aproximar-se de Deus: “Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia…” (v. 2) Primeiramente Moisés “se converte” a Deus que a partir deste fogo que não se apaga, fala com ele. O encontro ali tido com Deus faz com que Moisés perceba o caráter sagrado do lugar: “Tira as sandálias dos pés porque o lugar em que estás é uma terra santa” (v. 5).

Naquele santuário, o monte Horeb-Sinai Deus sai de si mesmo para dar-se a conhecer a Moisés porque há uma situação de sofrimento de seu povo frente à que Ele não pode permanecer indiferente: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa dos seus opressores; pois eu conheço as suas angustias. Por isso desci a fim de libertá-lo…” (vv.7-8).

Quando Deus chama alguém para uma missão, Ele o faz ver, primeiro, as necessidades dos que vivem ao seu redor. Moisés viu os israelitas sob a opressão. Então Deus o envia, em seu nome, para que liberte o seu povo do sofrimento. Assim é Deus. Não é um Deus que castigue ou cause o sofrimento, mas sim que busca os meios para terminar com ele. E esses meios passam muitas vezes pela disponibilidade das pessoas, por nossa disponibilidade, como Moisés digamos: “Eis-me aqui” (v.4).

A voz de Deus que chama Moisés da sarça que arde, também nos chama a nós pelo nome. Tomara que respondamos como ele: “Eis-me aqui”. Expressão de disponibilidade, docilidade ao que Deus nos pede.

No evangelho (cf. Lucas 13,1-9) Jesus nos propõe a conversão através de uma parábola e da interpretação de dois tristes acontecimentos que sacudiram a vida do povo: a morte de uns Galileus, por ordem de Pilatos; e uma torre, chamada “de Siloé”, que desmoronou matando algumas pessoas (vv. 1-5). O povo está indignado com a matança de Pilatos e porque os acidentes sempre acontecem com os mais pobres. Atribui tudo a “castigos divinos”, como se o mal fosse efeito da punição divina. Então Jesus vai fazer uma leitura diferente desses fatos, na perspectiva da conversão. Contou-lhes a parábola de um homem que tinha uma figueira plantada em sua vinha. Veio a ela procurar frutos, mas não encontrou. Então disse ao vinhateiro: Corta-a… Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa-a ainda este ano para que cave ao redor e coloque adubo. Depois, talvez, dê frutos… Caso contrário, tu a cortarás.” (vv. 6-9)

Os acontecimentos, os fatos dolorosos, as desgraças ou catástrofes não devem suscitar em nós a busca de presumíveis culpados, mas devem representar uma ocasião para refletir, para lê-los na perspectiva da fé. O que Deus quer nos dizer em tudo isso! Ler a história humana na ótica de Deus.

Para Lucas, o evangelista da misericórdia, ele apresenta um Deus paciente, tolerante com a fraqueza humana, compreensivo com a dureza da nossa mente e do nosso coração. Deus sabe que converter-se de verdade não é fácil, nem coisa de umas horas ou dias. Porque conhece o interior da pessoa, Ele sabe esperar; quando vê uma disposição sincera para a conversão não só espera, atua na consciência humana para que se converta.

Esta parábola é um convite para considerar não só a Quaresma, mas toda a nossa vida como um tempo de graça que é concedido para que a figueira produza frutos. Olhemos para nós próprios, vejamos se somos como essa figueira, consideremos que talvez seja este o ano que o Senhor nos dá para darmos fruto.

O ensinamento da parábola é claro: Daquele que ouviu a mensagem do evangelho, Deus espera frutos, pois Ele não se satisfaz com aparências, procura obras de misericórdia e amor.

Talvez nossa vida esteja sendo também estéril porque estamos, quem sabe, centrando-a egoisticamente em nós próprios: nossa família, amigos, pessoas com as quais nos relacionamos, girando em torno de nós mesmos. Dar frutos significa justamente o contrário. É estar atento a quem necessita algo de mim: uma palavra, um gesto, uma parte de meu tempo ou atenção.

Dar fruto é estar disponível, ser servidor, pensar no outro, ser capaz de amar gratuitamente o outro. Deus espera que sejamos capazes de dar frutos se não o fizermos nossa vida transcorrerá estéril e insignificante.

No entanto, nos custa dar frutos de verdade. Em nosso trabalho de todos os dias, em nossas relações sociais, em nossa vida familiar. Custa-nos muito mudar por dentro. Cada um de nós somos chamados à conversão. Jesus disse. “Se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo.” (Lc 13,5) De um coração convertido seguir-se-ão naturalmente frutos visíveis de uma conversão que toca a realidade da vida.

Mas esta conversão é um processo contínuo; não é um dado instantâneo, ou de uma vez por todas, mas constitui um crescimento. A conversão do coração a que nos chama a Quaresma, além de se expressar na vida e se conhecer pelos seus frutos, tem um sacramento que a conduz: a Penitência ou Reconciliação, o sacramento do perdão.

Se ainda não decidimos converter-nos, modificando nossos pensamentos, nossos projetos, nossas atitudes, chegou a hora de fazê-lo agora.

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