Reflexões

Crer em um Deus Amor

Autor:

Pe José Assis Pereira Soares

Agora que recomeçamos o Tempo comum na liturgia cristã católica, que nos levará até às portas do Advento, a liturgia não nos convida a decifrar e explicar o mistério da Santíssima Trindade, porque só o compreenderemos no céu, mas a celebrar, a contemplar Deus, avivar a nossa fé e adorá-lo, não como um ser isolado, incomunicável, inacessível, mas como um Deus próximo, um Deus que é relação e comunhão.

Em uma sociedade como a nossa, onde uma parte das pessoas tem sede do mistério de Deus, mas outra se distancia da prática religiosa, litúrgico-sacramental da Igreja, convém a nós que cremos ajudar as pessoas a descobrir Deus por experiência pessoal. Para tanto não basta uma formulação teórica, não basta saber quem é Deus, ou que Ele é uma Trindade, um Deus Uno em três pessoas.

Como se pode conhecer a Deus? Basta apenas a luz da razão? A pessoa pode, simplesmente com a razão, conhecer com certeza a Deus, mas não pode entrar sozinho na intimidade do mistério divino. É necessário que este mistério se viva de modo experiencial. Devemos, portanto promover tudo aquilo que auxilie para que as pessoas sintam e experimentem o Amor de Deus Pai, a amizade profunda com Cristo Jesus que revelou o rosto do Pai e a presença amorosa do dom do Espírito santificador.

Deus foi se revelando à humanidade através da criação e da história, alcançando a plenitude da revelação no Homem-Deus, Jesus, sua imagem perfeita em carne humana. Nós não temos uma história de Deus, como os deuses da mitologia grega, nós cremos num Deus presente e vivo em nossa história. Deus é no mundo, Deus é na história, Deus está no tampo e comunica-se.

Como Deus se apresenta nas Sagradas Escrituras? Diz-nos o livro do Gênesis, que Deus antes de formar o primeiro par humano, diz: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Deixa-nos assim a convicção de que há, segundo o “nosso” da expressão, uma deliberação de várias vontades. Fazendo o ser humano à sua “imagem e semelhança”, isto nos leva a procurar conhecer, saber como é esse Deus do qual somos “imagem e semelhança”.

Ao longo do Antigo Testamento Deus se apresenta como único, frente ao politeísmo das religiões de então, e, além disso, compromete-se amorosamente com seu povo, fazendo Aliança no Sinai. É o Deus da promessa à que sempre é fiel, apesar da infidelidade de seu povo.

Quando a promessa fundamental se realiza, a do Messias e Salvador, Deus manifesta a existência em seu seio do Pai, o Filho, o Espírito Santo. É um único Deus, mas em seu ser íntimo há uma dimensão comunitária, de conhecimento e de amor mútuo, que se personificam nessas três pessoas divinas.

A revelação de Deus ao longo da história da Salvação, e, sobretudo, com a presença de Jesus em nossa história permite que descubramos melhor o mistério interior de nosso ser aos olhos de Deus; que é o essencial de nossa condição humana, a razão de ser de nossa vida.

A partir dessa revelação, que a conhecemos por Jesus Cristo, os cristãos temos de entender o que é para nós ser imagem e semelhança de Deus, é ser imagem e semelhança da Trindade. Somos semelhantes a Deus na medida em que geramos comunhão, relação, vida comunitária, quer dizer, relação de comunicação amorosa entre nós. Dito de outro modo, todo o verdadeiro amor tem origem em Deus. Devemos fazer deste amor a realidade mais essencial de nossa vida.

O mistério da Trinidade não é, pois, um mistério no qual se tenha de ter uma compreensão, crer simplesmente, senão um mistério que nos está revelando como há de ser nosso autêntico ser humano; é mistério revelador da condição humana, criada à imagem e semelhança de Deus.

Contemplemos hoje dois testemunhos experienciais de Deus: O primeiro vem da experiência de fé comunitária de Israel. Moisés pediu a Deus que lhe mostrasse a sua face, e o Senhor lhe teria respondido: “Tu não podes ver a minha face, porque ninguém pode me ver e continuar vivendo” (Ex 33, 20).  Assim como Moisés toda pessoa de fé deseja conhecer ou ver Deus. Mas, Ele se revelou a Moisés, “passou diante dele” e ele o conheceu como “um Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fiel” (cf. Ex 34,6). Esta é a imagem que o povo hebreu tem de Deus. Os outros povos da antiguidade imaginavam Deus como um soberano poderoso e terrível, sempre pronto a enfurecer-se contra quem não lhe oferecesse sacrifícios ou violasse as suas leis. Consideravam-no um justiceiro severo que castigava com doenças e desgraças quem não lhe era agradável. No entanto, Deus se revela a Moisés com um rosto completamente diferente: não ameaça e não assusta.

O outro testemunho experiencial de Deus é o de um homem ou uma comunidade deslumbrada na contemplação de Deus que não hesitou em defini-lo como “Amor”, é o testemunho do Apóstolo João e da comunidade Joanina do primeiro século. “Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele”. (1Jo 4,16) Esse Deus ao enviar ao mundo o seu Filho, o fez unicamente para apresentar à humanidade que Ele ama: “Deus amou tanto o mundo que deu seu Filho Unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). E Jesus, cumprindo a missão do Pai, fez da sua vida um dom, até à morte.

“Deus amou!” e amar é dar-se: “Deus deu seu Filho” por amor. Ah! A palavra “amor” está tão desgastada, mas não existe outra, que indique antes de tudo a experiência profunda de relação entre duas ou diversas pessoas. É um conjunto de sentimentos e valores como alegria, tristeza, sofrimento, renúncia, fidelidade, dom de si mesmo, realização, compromisso, vida, morte, etc.

Em seus encontros com diversas pessoas, Jesus amou e experimentou este amor com toda a riqueza de sentimentos, de amizade, ternura e afeto. “Jesus amou” a humanidade e até àqueles que rejeitaram o seu amor. Aí está talvez o que mais nos desconcerta e impressiona, é que Deus não enviou o seu Filho ao encontro de pessoas perfeitas e por assim dizer, santas; mas enviou ao encontro de homens e mulheres egoístas, mesquinhos, autossuficientes, pecadores. Portanto, o objetivo de Deus ao enviar o seu Filho ao mundo, ao encontro da humanidade é para revelar o seu Amor, libertar e dar a vida eterna. Somos salvos pelo amor de Jesus. Como diz o Apóstolo Paulo: “Minha vida vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gal 2,20).

Muitas vezes temos medo de deixar nossas convicções e certezas e nos arriscar na grande novidade que Jesus revelou sobre Deus: “Deus é amor”. Muitas vezes preferimos o nosso “velho Deus”, juiz temível, vingador implacável, inacessível e distante, que inventamos e até desejando muito penetrar o seu mistério, demos a Ele rostos que são muitas vezes apenas a projeção dos nossos sonhos, anseios, necessidades e até dos nossos defeitos e tudo isso tem pouco a ver com a realidade de Deus. Deus não é um Senhor solitário e casmurro, é Amor e só o conhece quem ama. “Ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós. E o seu Amor em nós é realizado” (1Jo 4,12).

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