Reflexões

Basta amar

Autor:

Autor: Pe. José Assis Pereira Soares, Vigário geral

 

Hoje somos convidados a contemplar o amor de Deus. Com a ajuda do “discípulo que Jesus amava”, que escreveu uma carta destinada às comunidades da Ásia Menor do I século, afetadas pelos ensinamentos de certas seitas heréticas que deixavam os cristãos confusos, sem saberem o caminho da verdadeira fé. Nesse contexto, o seu escrito vai apresentar uma espécie de síntese da doutrina cristã.

A afirmação central do texto (cf. 1Jo 4,7-10) é que “Deus é amor”(v. 8) e esta certeza manifestou-se no mistério da Encarnação do Filho: “Deus enviou ao mundo o seu Filho.” Daí deriva que aprendemos a amar, contemplando o desígnio de Deus que na Encarnação do Filho e na sua morte e ressurreição chegou ao seu pleno cumprimento.

O “discípulo amado” no entanto, não chegou a esta definição de Deus através de raciocínios acadêmicos, filosóficos e abstratos, mas compreendeu por experiência que só quem é amado é capaz de amar e por isso escreveu: “Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou… Amemos, porque Deus nos amou primeiro.” (vv. 10.19) Não é o ser humano que procura e ama a Deus, mas é Deus que, desde sempre, o procura apaixonadamente.

O mesmo discípulo, testemunha ocular das últimas horas de Jesus vai recordar o seu ensinamento no contexto de despedida da última ceia: “Tendo amado os seus… amou-os até o fim.” (Jo 13,1) Amou-os com o mesmo amor com que o Pai o amou: “Como o Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor.” (Cf. Jo 15,9-17) Santo Agostinho (séc. V) comentando esta expressão vai perguntar: “Como poderíamos amar, se não tivéssemos sido amados primeiro?”

Poderíamos até dizer que esta é uma lei natural, se examinarmos mais essa expressão entenderemos como é verdadeira também nos planos humano e psicológico, somente quem experimentou ao menos inicialmente, na sua infância, o amor, é capaz de abrir-se a ele, e não ter medo de amar e deixar-se amar. Quem sofreu na infância carência afetiva é muitas vezes fechado e desconfiado e mais exposto do qualquer outra pessoa à tentação da violência.

Amar é a característica mais marcante do ser de Deus; a sua atividade mais específica. A prova desse amor é o fato de Ele ter enviado o seu único Filho ao mundo. João “viu” o que aconteceu com Jesus e como Ele mostrou em gestos concretos, palpáveis, esse incrível amor de Deus pela humanidade. Aí convida-nos a fazer a mesma experiência que ele e encontrar Jesus e não somente contemplá-lo, mas “permanecer“ no seu amor.

O Papa emérito Bento XVI com a encíclica “Deus é Amor” (“Deus Cáritas Est”), expõe com sabedoria a totalidade do amor de Deus, mas primeiro analisa a palavra “amor”: “tornou-se hoje uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, á qual associamos significados completamente diferentes… recordemos o vasto campo semântico da palavra amor: fala-se de amor à pátria, amor à profissão, amor entre amigos, amor ao trabalho, amor entre pais e filhos, entre irmãos e familiares, amor ao próximo e amor a Deus. em toda esta gama de significados, porém, o amor entre o homem e a mulher… sobressai como (modelo) de amor por excelência, de tal modo que, comparados com ele, à primeira vista todos os demais tipos de amor se ofuscam”. (DCE n. 2)

Por isso os profetas apresentaram o amor de Deus como o amor de Aliança, amor esponsal, como o amor de um esposo para com sua esposa, como um amor que pode ser amado.

Todos os dias pronunciamos a palavra “amor” com múltiplas expressões: “te amo”, diz a mãe ao filho, ”te quero”, diz o namorado à namorada, “te adoro” diz a pessoa devota a Deus, etc. Mas, em nosso caso, é claro que quando Cristo nos pede que “permaneçamos em seu amor”, nos está dizendo que nos amemos uns aos outros como Ele nos amou primeiro.

Também nós podemos responder com um amor circulante, amor fraterno, um amor em três planos: o amor do Pai pelo Filho Jesus, o amor de Cristo pela humanidade; e o amor dos irmãos entre si. Sem este amor não haverá vida cristã; relações, afetos, amor.

É importante examinarmos a pureza de nosso amor e que o façamos comparando nosso amor com o amor de Cristo. Jesus tem um estilo de amar inconfundível. É muito sensível ao sofrimento das pessoas. Não pode passar sem dar atenção a quem está sofrendo. Ao entrar, um dia, na pequena aldeia de Naim, encontra-se com um enterro: uma mãe viúva vai enterrar seu único filho. De dento de Jesus brota seu amor por aquela desconhecida: “Mulher, não chores.” Quem ama como Jesus vive aliviando o sofrimento e secando lágrimas dos outros.

Cristo quis amar-nos a nós como o Pai o amava a Ele, quer dizer, com um amor feito de gratuidade; nós nunca poderemos amar-nos com o mesmo amor que havia entre o Pai e o Filho, mas esse deve ser nosso ideal.

O amor humano sempre será amor humano, mas devemos tencionar que se pareça o mais possível ao amor divino. O amor humano sempre tem algo ou muito de egoísmo e na medida em que vamos matando em nós o egoísmo, vamos nos aproximando mais um pouco do amor divino. Teremos que purificar todos os dias nosso amor humano com o fogo do amor divino, para poder assim amar como Cristo nos amou. Este é o ideal de toda vida cristã: amar-nos uns aos outros, como Cristo nos amou; é um ideal muito difícil de conseguir, mas com a graça de Deus e nosso esforço diário podemos ir aproximando-nos de tão belo e maravilhoso ideal.

O amor cristão é “ágape”. É um amor gratuito, que se dá, que não consiste na posse do outro, mas sim na entrega desinteressada e no sacrifício pelo outro. Ágape é, em primeiro lugar, um amor originário, que não nasce em resposta a outro amor prévio. Não é um amor de troca. O amor do Pai é gratuito, Ele é a fonte primordial do amor. É um amor apaixonado, que perdoa que vai, em pessoa em busca da ovelha perdida.

Se quisermos amar como nosso Pai celestial, não esperemos que nos amem para oferecer nosso amor. O amor cristão é desinteressado, não busca adquirir nada com o amor, senão comunicar o que é e o que tem. Ao amar confere valor a aquilo que se ama.

Há amores eventuais. Amores que passam. Amores que fracassam. Porque, quando não são gratuitos, se cansam. O amor que prega Jesus, e que nos sustenta com o passar do tempo, é um amor que nunca se aborrece. Ou pelo menos, quando surgem tropeços, se dispõe de novo a levantar-se para entregar-se de novo.

O amor, quando é excludente, ansioso, já não é amor. Produz asfixia, esgotamento e fracasso. Nosso coração, quando está posto em Deus, espontaneamente se oferece aos outros. Quando pomos o amor humano, acima do amor divino, corremos o risco de sofrer um sério baque.

O amor cristão, que é distintivo dos seguidores e seguidoras de Jesus, nos faz ver as pessoas como irmãos irmãs. Ou dando a volta à frase, porque nos vemos como irmãos, somos capazes de entregar-nos uns aos outros.

A conclusão é que não podemos viver sem amor. Basta amar. A fé é inseparável do amor.

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