Reflexões

Advento, sacramento da esperança

Autor:

Por: Pe. José Assis Pereira soares – Vigário Geral

Hoje iniciamos, na liturgia da Igreja Católica, um novo Ano Litúrgico, ano de Lucas, evangelista da misericórdia, da “manifestação da bondade de Deus e de seu amor pela humanidade” (Tt 3,4). Evangelista dos pobres e dos pecadores, dos pagãos, das mulheres, especialmente, da Virgem Maria. Será o evangelista que irá nos conduzir até o rosto misericordioso do Pai revelado em Jesus Cristo, neste Ano da Misericórdia, que tem inicio neste Advento.

Cada Ano Litúrgico começa com o tempo do Advento (do latim ad-ventus = “chegada”). Para nós cristãos católicos, é um tempo poético especial, tempo da alegre espera da chegada de Jesus Messias. Ao longo de quatro semanas toda a Igreja mergulha na mística da alegre expectativa, da esperança e da vigilância.

O Advento coexiste neste ambiente de nossa sociedade consumista, com a “operação natal”, através do comércio, da publicidade; já respirando um “natal mágico”. Vale a pena aproveitar esta antecipação, de um povo que não sabe esperar, e valorizando aquilo que é interessante, anunciar aqueles valores absolutos sem os quais as pessoas não se realizam, nem alcançam a felicidade plenamente. É preciso cultivar uma “mística da espera”: “O vigia espera o sol, eu espero o meu Senhor!” (Sl 130)

Nossa espera pode ter diversos coloridos, sentimentos e emoções. Mas é ela que nos mantém vivos, em todos os sentidos. Podemos dizer até que “onde há vida, há esperança” ou inverter a frase e dizer: “onde há esperança, há vida”.

Para nós, cristãos, portanto, o Advento tem este sentido: preparar-nos novamente para receber no hoje da nossa vida, o nascimento daquele que dá sentido ao tempo, à história e à nossa vida.

O Advento situa-nos entre duas vindas do Filho do Homem: O Prefácio do Advento I diz-nos claramente: “Revestido da nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes, esperamos…” (Missal Romano).

Os Santos Padres, teólogos dos primeiros séculos, falaram das vindas do Senhor. São Cirilo de Jerusalém (séc. IV), afirma: “Anunciamos a vinda de Cristo: não apenas a primeira, mas também a segunda, muito mais gloriosa. Pois a primeira revestiu um aspecto de sofrimento, mas a segunda manifestará a coroa da realeza divina…” (Liturgia das Horas)

São Bernardo (séc. XII), fala não de duas vindas de Cristo mais de uma tríplice visita: “Conhecemos uma tríplice vinda do Senhor. Entre a primeira e a última, há uma vinda intermediária. Aquelas são visíveis, mas esta não. Na primeira vinda, o Senhor apareceu na terra e conviveu com os homens… A vinda intermediária é oculta e nela somente os eleitos o vêem em si mesmos e recebem a salvação.” (Liturgia das Horas)

Celebrando liturgicamente o tema da vinda do Senhor, no tempo do Advento evocamos esta vinda permanente de Jesus em nossa vida e em nossa história, esta visita da salvação à humanidade, pois num certo sentido é sempre tempo de salvação, “Kairós” permanente.

As leituras bíblicas, neste primeiro domingo tratam de muitos temas: a vinda de Cristo, a espera, a vigilância etc. Em vez de tratar de todos esses temas, quero me ater a um que resume todos: o tema da esperança cristã. Todo o tempo litúrgico do Advento celebra a esperança; é uma espécie de sacramento da esperança cristã.

Os antigos não conheciam “a virtude” da esperança, entendida como algo que é bom em si mesmo, em absoluto. Conheciam “a espera”, que como tal é ambígua, podendo ser a espera de algo bom como de algo ruim ou até falso, isto é, ilusório. Só o Deus cristão pôde ser chamado o Deus da Esperança (cf. Rm 15,13).

O mundo está mergulhado no desânimo e sedento de esperança. Nós cristãos somos responsáveis pela esperança que nos foi confiada; dela devemos “estar prontos para dar razão” e não só com palavras, mas, sobretudo como portadores ou testemunhas dessa esperança ao mundo. A esperança cristã é uma esperança dinâmica, cheia de coisas a ser feitas durante a espera: vigiar e crescer no amor para com todos.

Neste primeiro domingo do Advento, o evangelista Lucas (cf. Lc 21,25-28.34-36) usando uma linguagem apocalíptica, cheia de imagens e símbolos, nem sempre fáceis de serem compreendidos, pois não são da nossa cultura e época, nos mergulha num dos discursos escatológicos do seu Evangelho: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; e na terra, as nações estarão em angústia, inquietas pelo bramido do mar e das ondas; os homens desfalecerão de medo, na expectativa do que ameaçará o mundo habitado, pois os poderes dos céus serão abalados.” (Lc 21,25-26)

Porém, na linguagem apocalíptica não é necessário interpretar isoladamente cada imagem ou símbolo, mas percebermos a mensagem global: a agonia da história e os sinais cósmicos que precederão o final dos tempos e a última vinda de Cristo: “Verão o Filho do homem vindo numa nuvem com poder e grande glória.” (Lc 21,27)

Mas não podemos ser reféns do terror de que haverá um fim. Quem vive refém do medo do fim dá-se falsos objetivos de vida, que nada resolvem. Não passam de desesperados. O fim se abaterá sobre todos e tudo, não poupando nada. Mas o fim é o fim? Sim e não, pois nós conhecemos o dom do Pai e temos a esperança do Filho, que não decepciona.

A primeira intenção de Lucas é mostrar que não estamos caminhando para o “fim” (no sentido de destruição), mas sim para o “fim” (no sentido de finalidade e acabamento). A dissolução do mundo velho é, ao mesmo tempo, a criação do mundo novo. Nesse sentido o fim da história não é o caos, a destruição da vida, a morte total. O “ultimo dia” não é o dia da ira e da vingança, mas da libertação. Lucas resume o pensamento de Jesus com estas palavras: “Erguei-vos e levantai a cabeça, pois está próxima a vossa libertação.” (Lc 21, 28) Não são a destruição e a morte que têm a última palavra, mas a libertação e a vida, porque o Cristo é o Senhor do cosmos, da história e da humanidade.

Temos que reacender a nossa confiança, levantar o espírito e despertar a esperança. Um dia, os poderes financeiros vão afundar. A loucura dos poderosos vai acabar. As vitimas de tantas guerras e violências conhecerão a justiça e a vida. Nossos esforços por um mundo mais humano não se perderão para sempre.

Diante das forças do mal que parecem dominar o mundo além do desânimo, existe o perigo da fuga desta realidade, da busca de paliativos, de soluções enganosas. Há os que fogem dos problemas, deixando-se escravizar pelos vícios, procurando compensações, isolando-se no próprio ego, enclausurando-se no seu próprio pequeno mundo.

“Que o Deus da esperança vos cumule de toda a alegria e paz em vossa fé, a fim de que pela ação do Espírito Santo a vossa esperança transborde!” (Rm 15, 13)

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