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  AGENDA DO BISPO
 
<Setembro, 2010>
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PALAVRA DO BISPO
Pronunciamento de dom Jaime na Missa do Crisma
por Dom Jaime Vieira Rocha
Ilustríssimos e amados irmãos e irmãs na fé em Cristo, Reverendíssimos e amados irmãos no sacerdócio, Presbíteros da Diocese de Campina Grande

Hoje, nesta manhã, reunimo-nos na Sé Catedral de Campina Grande para participar de acontecimento de extraordinário significado eclesial: a celebração da Santa Missa do Crisma na qual os santos óleos serão consagrados. Antes de darmos início aos ofícios divinos do Tríduo Sacro, quando celebraremos a Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, a Igreja de Cristo, Santa e Pecadora, reúne-se para dar um testemunho de unidade na pregação dos apóstolos, na oração e na fração do pão. É uma oportunidade única para vivermos a prática do perdão e da misericórdia em vista da reconciliação e da paz em torno do altar do Senhor.

Santo Inácio de Antioquia, Bispo e Mártir da Igreja de Cristo, antes de morrer triturado pelos dentes dos leões nos ensinou: “Onde está o Bispo, aí está a Igreja, assim como onde está Cristo Jesus aí está a Igreja”. Explicitemos que o termo Igreja é primordialmente empregado no seu sentido espiritual: assembléia santa, povo santo de Deus, corpo místico de Cristo, comunidade dos que renascerão da água e do Espírito Santo, pelo batismo para uma vida nova em Cristo Jesus. Neste sentido, podemos recordar o ensinamento de santo Inácio, hoje, aqui, agora: “Onde está o Bispo, aí está a Igreja, assim como onde está Cristo Jesus aí está a Igreja”.

Somos a Igreja de Cristo, todos os batizados, quando estamos unidos num só coração, numa só alma, numa só mente. Não apenas uma parte da Igreja, mas toda a Igreja de Cristo: triunfante, militante e padecente; celeste e terrestre; santa e pecadora. Se estivermos unidos numa só fé e se nos deixarmos transformar pelo poder do amor de Cristo, todos nós, triunfantes, militantes e padecentes, na presença de Deus, na glória eterna seremos todos amantes, pois como diz São Paulo: tudo passará. A fé e a esperança passarão, apenas permanecerá o amor, porque o amor de Deus é eterno e sua misericórdia infinita (Sl 117). O apóstolo das nações nos recorda que somente o amor poderá nos salvar: “É pela graça que fostes salvos, mediante a fé. E isso não vem de vós: é dom de Deus!” (Ef 2,8). Quando dizemos misericórdia, queremos significar que o coração misericordioso do nosso Deus se inclinou na nossa direção e o seu amor foi derramado em nossos corações. Apenas por ele é somos salvos.

Estamos aqui, pois, reunidos em santa assembléia e, neste momento, vem a minha mente a ao meu coração a lembrança das palavras de Santo Agostinho, quando falava aos fiéis e aos presbíteros de sua Diocese. Dizia o Santo Bispo e Doutor da Igreja: “Desde o momento em que foi colocado sobre os meus ombros este cargo de tanta responsabilidade, atormenta-me a preocupação da dignidade que o acompanha. De fato, o que há de mais temível neste ministério é o perigo de nos satisfazer mais o seu aspecto honorífico do que a sua utilidade para a vossa salvação. Mas se por um lado me atemoriza o que sou para vós, por outro lado consola-me o que sou convosco. Sou bispo para vós, sou cristão convosco. Aquele nome significa um encargo recebido, este exprime o dom da graça; aquele é ocasião de perigo, este é caminho de salvação. Se o cumprimento dos deveres próprios do nosso ministério exige trabalho e esforço, o dom de ser cristão, do qual participamos convosco, representa o nosso descanso. Portanto, se me agrada mais o pensamento de ter sido resgatado convosco do que o de ter sido constituído vosso chefe espiritual, então devo entregar-me mais generosamente ao vosso serviço, segundo o mandato do Senhor, para não ser indigno do preço pelo qual mereci ser vosso irmão no serviço de Deus”.

Minha palavra dirige-se a vós, caros irmãos presbíteros, que dividis comigo esta gravíssima e imensa responsabilidade, e compartilhais comigo esse inestimável dom. Vós podeis e deveis pensar, dizer e agir assim: sou presbítero para vós, convosco sou cristão, isto é, sou servidor da misericórdia de Deus para vós, sou santificado pelo amor de Deus convosco. Assim, enquanto presbíteros, vós sois instrumentos da misericórdia de Deus para a salvação mundo inteiro. E, enquanto cristãos, vós deveis vos lavar e purificar pelo amor de Deus para a vossa própria santificação e salvação. Tudo isso a fim de que, no desejo de quererdes salvar o mundo, não acabeis por perder a vós mesmos, pois o próprio Cristo nos instrui a esse respeito: “Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua alma. O que poderia oferecer em troca de sua própria alma?” (Mc 8,36-37).

Vim como peregrino para tomar conhecimento da obra realizada pelo Senhor no meio de vós. Cristo me chamou e constituiu como o primeiro em responsabilidade e graça entre o número dos pescadores deste mar. Também vós fostes constituídos como pescadores da barca de Pedro, que é a Igreja de Cristo. Devemos trabalhar harmoniosamente no seguimento do Senhor, pois a barca, as redes e os peixes não são nossos, mas de Cristo. Bem sei como é estimada e desejada a obra de comunhão eclesial e ação pastoral, e de encorajamento na unidade da doutrina. Contudo, é necessário que busquemos dar passos firmes e mais largos na direção das águas mais profundas, abandonando-nos inteiramente nas mãos do Senhor, na perfeição da obediência a sua palavra, confiando e esperando apenas nele.

A Igreja agradece o zelo que distingue a vossa ação pastoral e reza para que seja levada a sua plenitude. Viestes em grande número para participar desta Santa Eucaristia. O que acontece de modo especial nesta celebração é, talvez, a tomada de consciência do que somos e do que fazemos, tomar consciência da função e da dignidade que recebemos para a glória de Deus e a santificação e salvação nossa e do mundo inteiro. Pois, ao mesmo tempo, somos figueiras e operários da vinha do Senhor. Enquanto figueiras, não podemos ser estéreis, pois devemos produzir frutos de santidade e justiça. Enquanto operários não devemos ser relaxados nem preguiçosos, pois devemos produzir efeitos de conversão e salvação.

Se somos figueiras da vinha do Senhor e devemos produzir frutos, teremos de viver o Evangelho, dando testemunho com a nossa própria conduta, renovando por completo o nosso modo de ser, pensar, julgar e agir. Se somos operários da vinha do Senhor e devemos produzir efeitos, teremos que pregar o Evangelho a toda criatura, fazendo discípulos de Jesus todos os povos, batizando-os e ensinando-os a praticar tudo o que ele ordenou. Todavia, acontece que, ao mesmo tempo, somos figueiras e somos operários e exigem-se de nós o peso do cargo e a dignidade do dom, ou seja, exige-se de nós o anúncio de Cristo que se faz perfeito apenas com a unidade do coração e da boca, somente com a unidade do testemunho e da pregação. A respeito desta responsabilidade São Paulo manifestou a sua consciência, com estas palavras: “Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; pelo contrário, é uma necessidade que me foi imposta. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!” (1 Cor 9, 16).

A vocação e o dever de anunciar pela palavra e pelo exemplo são de todos nós batizados, bispos, presbíteros e fieis leigos. No dia do nosso batismo, assumimos esta vocação e este dever como compromisso e missão. Todos nós devemos ser portadores de Cristo e do seu evangelho, ensinando, santificando e orientando todos os homens e mulheres para Deus. Conservemos vivo em nós aquilo que diz o Santo Apóstolo Pedro: “Cuidai do rebanho de Deus que vos foi confiado, velando sobre ele não por imposição, mas de livre e espontânea vontade, como Deus quer; não por causa do lucro, mas com generosidade; não como donos daqueles que vos foram confiados, mas como modelos para o rebanho” (1Pd 5, 2-3).

A nossa vida já pertence a Cristo e a sua Igreja. A nossa vida já pertence a este povo de Deus. Este é, pois, o nosso dever e missão: orientar a nossa vida e a vida do povo rumo à Graça. Saciá-las com o frescor da Palavra da salvação, alimentá-las com o pão da Eucaristia, conserva viva em nós e no povo a lembrança de Deus e o desejo das realidades eternas. Que o Espírito Santo nos guie e ilumine nesta tarefa e nos acompanhe a proteção maternal de Maria Santíssima. Amém.

Campina Grande/PB – 1º de abril de 2010
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