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Oferta da vida: uma reflexão sobre a nova via de beatificação

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Maiorem hac dilectionem” sobre a oferta da vida. Fica assim aberto caminho para a beatificação daqueles que por amor ofereceram a vida pelo próximo. Neste “Sal da Terra, Luz do Mundo” transmitimos o comentário do teólogo português José Carlos Carvalho.

Oferecer a vida é caminho de beatificação: aqueles que levados pela caridade ofereceram a própria vida pelo próximo, aceitando livre e voluntariamente uma morte certa e prematura, podem agora vir a ser considerados beatos porque afirmam com este gesto a intenção de seguir Jesus.

O Motu Próprio de Francisco, publicado em julho, introduz mais uma via para que se proceda à beatificação de um Servo de Deus: a oferta da vida. Até ao momento eram três os caminhos: o martírio (suprema imitação de Cristo com morte violenta), as virtudes heroicas (a vivência acima do comum e constante no tempo das virtudes teologais), e os casos excecionais (conhecida como equipolente).

Esta temática foi debatida pela Congregação para a Causa dos Santos desde janeiro de 2014. O Santo Padre sempre encorajou a reflexão sobre esta matéria que teve em junho de 2016 um congresso específico. O texto do Papa foi publicado no jornal do Vaticano “L’Osservatore Romano” e entrou em vigor no próprio dia da sua publicação.

Para uma reflexão sobre esta decisão do Santo Padre pedimos um comentário ao teólogo português José Carlos Carvalho que, amavelmente, concedeu, mais uma vez, uma entrevista à reportagem da Rádio Vaticano:

P – O Papa aprovou recentemente um Motu Próprio que abre caminho para a beatificação daqueles que ofereceram a vida pelo próximo. Que comentário a esta decisão do Santo Padre?

R – “Bom, só me resta alegrar-me com mais esta possibilidade porque permite abrir um processo, que segue depois os trâmites normais, recolha de testemunhos, a necessidade de atestação do milagre, mas o importante para mim consiste no facto de aceitar que pode ser apresentado como exemplo para a Igreja alguém que em nome da vida se entregou pelo outro, deu a sua vida para que o outro viva. Sabendo, como diz o Motu Próprio, que a morte está iminente. Isso é de alguma maneira estatuir aquilo que já era prática na Igreja e que outros santos chegaram ao altar também por essa via.”

Portanto, já não é obrigatório a violência sobre o martirizado, mas o simples facto de o fazer sendo cristão batizado, entregando a sua vida como Jesus entrega pelos outros, neste caso por alguém, isso é um sinal do Evangelho. E nesse sentido alegro-me com esta possibilidade porque vem reconhecer aquilo que acontece por esse mundo fora e que a graça vai operando. Que não se vê, que não aparece nos telejornais, na hipocrisia da comunicação social, mas que Deus vai continuando a agir no mundo por muitos e muitas que deram a sua vida pelos outros e que dão a sua vida pelos outros. De uma maneira livre, gratuita.

A notícia refere o caso de uma mãe em Itália que em 2012 com apenas 28 anos tendo um cancro abdicou do tratamento para se curar porque sabia que se submetesse a quimioterapia iria afetar o feto. Então abdicou de si, sabendo que isso lhe causaria a morte, mas isso também permitiu que a vida que estava em gestação viesse à luz. E hoje o filho vive, a mãe certamente está no Céu, é um sinal é um exemplo para todos e isso é Evangelho. Deus é assim: um Deus que morre para si e isso é mostrar em carne e osso quem é Deus.”

P – E oferecer a vida é um sinal evangélico. Então esta decisão é um sinal evangélico, um sinal muito forte para os tempos de hoje?

R – “Sim. Pode em muitos casos acontecer meramente por filantropia. Mas, obviamente, o Motu Próprio considera que os casos daqueles e daquelas que pela sua fé abdicam da própria vida para fazer Deus habitar o mundo. Isto é, para que a vida dos irmãos e das irmãs se torne mais engraçada: isto chama-se graça na fé. E isso é muito importante num mundo que é muitas vezes plutocrático, uma cultura que idolatra a fama, que tem uma patologia com a sexualidade nas suas várias modalidades e que, desse ponto de vista anda muito doente, que precisa não de psicólogos mas de muita psiquiatria. Uma cultura da competitividade e uma cultura do parecer até na política.”

Portanto, entregar a vida significa considerar que há uma verdade que nos transcende e que a verdade é, não é apenas o que parece. E isso é muito importante para os dias de hoje. Uma cultura que, muitas vezes, esquece o semelhante, que não acolhe o diferente, que, como o Papa diz muitas vezes, descarta o que não é igual, que põe à margem o refugiado. Que usa de muita violência encapotada e que por isso também dessa maneira diz que a vida é mais importante do que os meus egoísmos, as modas, os interesses próprios. E é uma palavra muito importante para a cultura contemporânea. E significa mostrar em carne e osso o que significa misericórdia. Algo de que o Papa fala tanto e falou tanto. E isso não se aplica apenas ao mundo e à sociedade. Como eu digo muitas vezes: o TPC (trabalho para casa) começa cá dentro. O dar a vida na família, na paróquia, na Igreja, no seminário, na ordem religiosa. Isto é muito difícil porque é o caminho de Jesus.”

“Sal da Terra, Luz do Mundo” ´é aqui na Rádio Vaticano em língua portuguesa.

(RS)

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