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<Setembro, 2010>
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ARTIGO
Um homem, um nome, uma vocação
por Pe. José Assis P. Soares
Quando recordamos um personagem importante na história da salvação unicamente se celebra o dia de sua morte. Em alguns casos celebramos seu nascimento a uma nova vida espiritual, sua conversão, como é o caso de São Paulo. “O nascimento para esta vida terrena é celebrado liturgicamente tão só para Jesus, Maria e João... Quanto a João, é reconhecido o duplo título de último profeta (‘É mais que um profeta’, diz Jesus) e primeiro apóstolo. Ao anunciar a chegada do Messias, João exortava à conversão e dava o batismo para a remissão dos pecados. Daí o nome de Batista ou Batizador. O profeta e apóstolo, é também mártir, pois pagou com a vida o rigor moral e a coragem de opor-se à má vida de um pequeno monarca apaixonado pela sobrinha, a qual não hesitou em pedir-lhe a cabeça do Batista, cujo martírio é celebrado liturgicamente a 29 de agosto.” (Sgarbossa, 2003.) Ao celebrar a natividade de São João Batista, a Igreja quer sublinhar a importância do "Precursor" na preparação do "caminho do Senhor" e ver em seu profetismo uma inspiração para o seu testemunho hoje.

A festa litúrgica é de antiga data. “Já no século III, alguns teólogos, fundando-se no simbolismo de Cristo-sol, deram atenção especial aos solstícios na história da salvação. Assim, chegou-se à opinião de que o Batista teria sido concebido no equinócio de outono e teria nascido no solstício do verão europeu, porque no solstício de verão os dias começam a diminuir e começam a aumentar depois do de inverno. Agostinho vê nisso uma aconfirmação cósmica da palavra de João (3,30): ‘É necssário que ele cresça e eu diminua’... Certo paralelismo entre o natal de Jesus (no inverno europeu) e o do Batista (no verão europeu) deu ocasião a manifestações, muitas vezes folclóricas (por exemplo, fogos de são João), no início do verão na Europa.” (Lodi, 2001.)

Sobre as origens da festa de São João no Brasil “uma idéia unânime entre todos os folcloristas é que esta festa possui uma origem européia e chegou ao Brasil, através dos portugueses em meados do século XVI. (...) Entre os folcloristas, prevalece a tese solsticial e é explicada pela presença do fogo, reminiscência de antigos cultos pagãos e não cristãos. Em toda a Europa os camponeses têm, desde tempos imemoriais, o costume de acender fogueiras em certos dias do ano e dançar e saltar à volta delas. (...) Um leve colorido cristão lhe foi dado atribuindo-se-lhe o nome de festa de São João Batista, mas não pode haver dúvidas de que a celebração data de uma época muito anterior ao início da nossa era. Embora se possa considerar como certa a origem pagã do costume, a Igreja Católica lançou sobre ele um véu cristão. (...) Alberto Pimentel, um famoso folclorista português, ao escrever no início do século passado sobre a noite de São João defende a tese da adoção e adaptação da Igreja a um culto pagão, transformando-o em cristão. Neste sentido lucidamente ele problematiza: ‘Como foi que pode rodeiar-se de ruidosos e desenvoltos festejos a memória d’este austero Precursor, que viveu no Deserto uma vida de isenção e penitência; que só falava para fazer reconhecer a identidade do Messias ou para moralizar os costumes? Como foi que o asceta, o solitário, o purificador, que somente deixava a sua caverna para afirmar pelo apostolado a divindade de Jesus, e para conduzir à remissão dos pecados pela instituição do baptismo, como foi que o martyr, o priosioneiro, o decapitado, pode transformar-se no santo aventuroso e folião leviano e galhofeiro, patrono de estúrdias e licenciosidades, tal como o kalendario popular o considera na tradição dos séculos? E’ é a volta das ceremonias lithurgicas com que a egreja celebra o anniversario do Precursor, vieram agrupar-se os vestígios de um mytho solar, pela coincidência chronologica d’esse anniversario com o solstício de verão’.” (Lima, 2010.)

É sobre este homem, João e sua missão: “profeta do Altíssimo” (Lc 1,76) que nós cristãos católicos celebramos a festa litúrgica do seu nascimento. Sem nenhuma pretensão ou necessidade temos de “sacralisar” uma realidade pagã e profana mas, tão somente apresentar e exaltar a figura do “Precursor”. O nascimento de João Batista foi e ainda é, mesmo que inconscientemente motivo de alegria para muitos. E se reveste de um simbolismo todo especial para nós nordestinos. Nasce a profética “voz que clama no deserto.” (Jo 1,23) Nós também somos filhos de uma mãe-terra aparentemente “estéril”, o solo árido do Nordeste e possuidores de uma cultura aparentemente “muda”, marginalizada no contexto nacional, no entanto daí surge uma voz cheia de significado libertador.

“Completou-se o tempo para o parto, Isabel deu à luz um filho. Os vizinhos e os parentes ouviram dizer que Deus a cumulara com sua misericórdia e com ela se alegraram.” (Lc 1, 57-58) “O nascimento de João Batista é visto como um ato de ‘misericórdia’ do Senhor na vida de Isabel. Na Bíblia, essa palavra tem um significado diferente do sentido que tem em nossas línguas modernas. Não indica compaixão para com uma pessoa indigna e desprezível (não é que Isabel tivesse cometido tantos pecados), mas se refere à generosidade e fidelidade de Deus. Deus mostra como é grande o seu poder e gratuito o seu amor tornando fecunda uma mulher estéril. O seio de Isabel representa a condição da humanidade: sem vida, sem esperança, sem futuro. É uma situação insustentável, triste e sem saída. Deus intervém do alto para dar-lhe vida, movido unicamente por seu amor. Neste ponto explode a alegria, uma alegria que envolve a todos, os pais, os parentes, os vizinhos. É sempre assim que acontece quando Deus entra na história do homem”. (Armellini, 2000.)

Nascido da grande misericórdia de Deus será o Batista o último profeta do Antigo Testamento. Ele representa a linha divisória entre os dois Testamentos. Os profetas antigos predisseram a vinda do Salvador, os apóstolos testemunharam que essa vinda ocorrera, mas só João pode apontar o Salvador presente na humanidade: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Dele é que eu disse: Depois de mim, vem um homem que passou adiante de mim, porque existia antes de mim.”(Jo 1, 29-30) O nome pessoal que recebe tem uma grande importância pelo fato de que é Deus mesmo que o atribue: foi assim no caso de Jesus e no de João Batista. “No oitavo dia, foram circuncidar o menino. Queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias, mas a mãe tomando a palavra, disse: ‘Não, ele se chamará João’. Replicaram-lhe: ‘Em tua parentela não há ninguém que tenha esse nome!’. Por meio de sinais, perguntavam ao pai como queria que se chamasse. Pedindo uma tabuinha, escreveu: ‘Seu nome é João’, e todos ficaram admirados.” (Lc 1, 59-63) Dar um nome é entre os povos da antiguidade, dar um destino, uma vocação, uma missão e os dons adequados para desempenhá-la. João significa "o Senhor é favorável". Sua missão será anunciar um batismo de conversão.

O que vai ser este menino? É a pergunta que todos se fazem. É possível que o imaginem ocupando um cargo importante, talvez ministro ou sacerdote, já que era filho de sacerdote. Há algo que o evangelista deixa bem claro: "a mão do Senhor estava com ele... O menino crescia e se fortalecia em espírito. E habitava nos desertos, até o dia em que se manifestou a Israel.” (Lc 1,66.80) João Batista não passava de um menino ainda quando se embrenhou no deserto e resolveu ali se preparar para sua missão. Debaixo do tórrido sol do deserto, vestido com uma pele de camelo sustentada com um cinto de couro e um tosco cajado na mão la vai o “Precursor de Cristo”. Particularmente são questionantes, seu despojamento, sua radicalidade, sua entrega total à missão.

A sua pregação foi o começo do Evangelho de Jesus. Profeta e apóstolo, ele é também mártir e o seu martírio, um presságio da Paixão do Salvador. Renunciou à sucessão do pai no serviço sacerdotal, a fim de poder anunciar a verdade, com toda a liberdade e coragem enfrentando os poderosos. Estas características fazem parte do caminho da vocação profética. É certo que está cada vez mais difícil encontrar cristãos militantes que deem razão e defendam a vida cristã em seus respectivos lugares de vida e trabalho. Resulta raro e extraordinário descobrir cristãos enfrentando com respeito, mas com firmeza, uma realidade que tem a pretensão de desmoronar tudo o que soe a cristão. Talvez não é que muitos batizados não damos razão de nossa esperança o pior de tudo, é que, talvez, não a damos por que não temos experiência profunda e real de Jesus em nossas vidas. A vida de muitos de nós cristãos, se pode parecer um pouco ao instinto de avestruz que esconde a cabeça debaixo de suas penas ou na terra crendo que assim passará o perigo. Não nos podemos contentar nem ficar satisfeitos em sermos apenas, o fato religioso, uma referência cultural e muito menos folclórica como querem nos reduzir. É a hora de provocar, em sentido positivo, um interesse na direção da pessoa, não somente histórica e sim também divina de Jesus. Como João o Batista, em toda sua vida, o fará e o sinalizará. Com a sua vida e as suas palavras, João deu testemunho da verdade: sem covardias perante os que ostentavam o poder, sem se deixar afetar pelos louvores das multidões, sem ceder às pressões dos fariseus. Deu a vida em defesa da Lei de Deus contra todas as conveniências humanas.

João foi, com efeito, a primeira testemunha de Jesus, o Messias e Redentor. Seu testemunho foi sempre fiel e valente. A assembléia dos mártires João a preside como o primeiro de todos: combateu corajosamente pela verdade e morreu por ela. Tornou-se o chefe de todos aqueles que combatem por Cristo, e foi o primeiro a desfraldar no céu a bandeira triunfante do martírio.

Hoje sua voz volta a ressoar com os mesmos tons de urgência, para “anunciar ao povo a Boa Nova.” (Lc 3,18) Por outra parte sua figura de testemunha fiel é um chamado a nosso próprio testemunho de discípulos e discípulas comprometidos com Cristo. É característica da nova evangelização, dar testemunho do evangelho com a própia conduta. Na realidade esse foi o encargo que Cristo deu a seus apóstolos pouco antes de subir ao Céu, que fossem suas testemunhas. Nessa linha se situa Bento XVI quando disse aqui no Brasil que os cristãos mais que fazer proselitismo, temos de exercer uma poderosa atração com nossa conduta.

Bibliografia
SGARBOSSA, Mario. Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente. São Paulo, Paulinas, 2003.
LODI, Enzo. Os Santos do Calendário Romano. São Paulo, Paulus, 2001.
LIMA, Andrade, Elizabeth Christina de. A Festa de São João nos discursos Bíblico e Folclórico. Campina Grande, EDUFCG, 2010.
ARMELLINI, Pe. Fernando. Celebrando a Palavra, Festas. São Paulo, Editora Ave-Maria, 2000.

Fonte: Paraibaonline
 
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