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<Setembro, 2010>
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ARTIGO
Pessoas novas, humanidade nova e comunidade cristã nova
por Pe. José Assis P. Soares
Com as sensações ainda bem vivas das celebrações da Semana Santa, celebrando a oitava de Páscoa que repete durante uma semana o acontecimento da Ressurreição que celebramos na Vigília Pascal, agora fazemos o caminho alegre do Tempo Pascal, tempo da Igreja, da comunidade eclesial, dos Sacramentos, dos Atos dos Apóstolos e o tempo do Espírito Santo. Toda a vida da Igreja é Pascal. Toda a vida de um cristão deve ser vivida nesta chave pascal e de ressurreição, se não, seguiremos de luto e não passaremos a página do dolorismo da Sexta-feira Santa. Mas, esta espiritualidade pascal precisa ainda ser assimilada por nós, cristãos católicos.

A fé em Jesus Ressuscitado nos converte em homens e mulheres “novos”. Essa é a grande experiência da Páscoa. A comunidade primitiva viveu a experiência de encontrar-se com um Jesus que acreditavam que estava morto e que está vivo. Este acontecimento transformou a vida dos discípulos e discípulas para sempre. Os que antes estavam escondidos, agora com “parresia” (a franqueza destemida da fé) pregam publicamente, na porta do templo. Os que tinham as portas fechadas por medo, agora saem às ruas e formam uma comunidade nova e missionária, porque a experiência de encontro com Jesus é vivida em comunidade. E transmitem essa experiência convidando a viver de maneira nova, a formar uma humanidade “nova”, a Igreja.

O livro dos Atos dos Apóstolos é uma leitura muito recomendada para este tempo pascal, porque nos conta como pouco a pouco se vai formando a comunidade cristã, com a força e o impulso do Espírito Santo. O lugar sagrado já não é o templo, mas a própria comunidade, já que é nela onde se descobre a presença do Ressuscitado. Jesus Ressuscitado é o centro da comunidade, sua fonte de vida, seu ponto de referência, o fator de unidade, de confiança e segurança. A comunidade cristã “nova” nasce à luz desta experiência.

A recordação idealizada da primeira comunidade cristã descrita por Lucas, no livro dos Atos dos Apóstolos, mostra as qualidades que têm o grupo dos seguidores de Jesus do primeiro século: “Mais e mais aderiam ao Senhor, pela fé, multidões de homens e de mulheres... a ponto de levarem os doentes até para as ruas, colocando-os sobre leitos e em macas, para que ao passar Pedro, ao menos sua sombra cobrisse algum deles.” (At 5,14-15) Faziam sinais e prodígios, mas o milagre dos milagres é crer. Os discípulos dão testemunho de Jesus Ressuscitado. Era possível descobrir Jesus Ressuscitado somente “no meio” da comunidade. Comparando tudo isto com a imagem medrosa de muitos cristãos do século XXI, pode parecer que nos encontramos muito longe daquele ideal. Parece que em lugar de aumentar, diminui em alguns lugares o número dos que aderem a Jesus.

Iniciamos este Tempo Pascal de 2010 imersos, por exemplo, nos graves problemas que a Igreja tem e que o Papa Bento XVI tem afrontado com grande coragem, pelo afloramento de casos de pecados repetidos contra muitas crianças e jovens. São os casos de pedofilia nas igrejas da Irlanda, Alemanha, Estados Unidos, Brasil, etc. É terrível e inimaginável pensar que pessoas encarregadas do testemunho e da evangelização de crianças e jovens, que homens e mulheres consagrados lhes tenham conduzido até com violência pelos caminhos do pecado. É devastador o efeito de tudo isso. Mas o tempo passará. A Igreja saberá sair deste problema e reparar o mal feito.

É imperativo, obrigatório, necessário, conveniente não esconder o mal debaixo dos tapetes dos gabinetes das autoridades eclesiásticas ou civis, como se isso se tratasse ou fosse o resultado de uma sociedade mal varrida. Tem que aflorar a verdade e o dano ser reconhecido, assumido com justiça e encontrar o remédio para tais problemas. Ainda que muitos que exigem vociferando que a Igreja reconheça seus pecados, mantenham em silêncio seus próprios pecados, porque já nos disse Jesus: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” (Jo 8, 7) Mas isso não serve de justificativa para a impunidade.

Sem dúvida, não é de todo certo que sejamos piores do que as outras gerações da Igreja, apesar dos escândalos de alguns cristãos e sacerdotes, apresentados nos meios de comunicação com certa morbidez interessada. Eu acredito que a Igreja é santa, santa porque foi pensada e fundada por Jesus Cristo, como sinal do seu Reino; aspira à santidade de todos seus membros e é apoiada sempre pela graça salvadora de Jesus Cristo. Mas é composta por homens e mulheres pecadores. Jesus colocou sua Igreja sobre os ombros de homens e mulheres e não nos ombros de anjos. Pretender que nela tudo seja santo é não compreender as misérias e limites da condição humana.

A comunidade cristã nasce da experiência do encontro com a Verdade e com o Ressuscitado, “para que, crendo, tenhais a vida em seu nome”. Se não partimos da certeza de que Jesus está “no meio de nós”, não poderemos construir uma comunidade cristã viva. Se não cremos que o Espírito Santo é o que vai à frente de tudo isto, bateremos contra a parede uma e outra vez. Se não nos convencemos de que a vida cristã é essencialmente comunitária, não deixaremos de tropeçar em nossos próprios fracassos pessoais.

O evangelho de João 20, 19-31, neste segundo Domingo da Páscoa, nos apresenta Jesus Ressuscitado como fundamento e centro da comunidade cristã. “Jesus aparece no centro de sua comunidade, porque ele é para ela a fonte da vida, o ponto de referência, o fator de unidade. A comunidade cristã está centrada em Jesus e somente nele... constitui-se ao redor de Jesus vivo e presente, crucificado e ressuscitado. Ele está no seu centro, outorgando-lhe confiança e segurança. Sua presença é ativa; dele, que se entregou pelos homens, brota a força de vida que anima a comunidade em sua missão, a qual, como a de Jesus, é a atividade libertadora do homem, até a entrega total. A comunidade, alternativa que Jesus oferece, dá testemunho perante o mundo da realidade do amor do Pai. Tomé é um dos Doze, separado da comunidade (não estava com eles quando Jesus chegou), está em perigo de se perder, por não ter participado da experiência comum, além disso, Tomé não estava presente no ato de fundação do povo da nova aliança; não recebeu o Espírito nem, com ele, a missão. ‘Vimos o Senhor em pessoa’ assim os outros discípulos referem a Tomé sua experiência, mas ele não aceita o seu testemunho. A existência de que Jesus esteja vivo. Ainda que esteja disposto a morrer; não crê na permanência da vida. Não admite que aquele que eles viram seja o mesmo que conhecera. Exige prova individual e extraordinária. Contudo, o encontro com Jesus, que funda a fé, realiza-se através da experiência do amor na comunidade; é nela que agora se manifesta e se percebe sua glória (Jo 17,21.23;13,35). ‘Oito dias depois’ Tomé reintegrou-se na comunidade; pode experimentar o amor, Jesus toma a iniciativa para impedir que Tomé se perca (Jo 17,12), Tomé que lhe tinha dado adesão sincera, mostrando-se disposto a morrer com ele (Jo 11,16). A resposta de Tomé é tão extremada como sua incredulidade. ‘Meu Senhor e meu Deus!’ (Jo 20,28) ao chamá-lo assim, Tomé reconhece o amor de Jesus e o aceita, expressando ao mesmo tempo sua total adesão... Tomé vê em Jesus o acabamento do projeto divino sobre o homem e o toma como modelo (meu). A experiência que Tomé faz é a mesma que fizeram os outros discípulos, ver Jesus em pessoa (Jo 20,25). A censura de Jesus refere-se, portanto, à recusa de Tomé a crer no testemunho da comunidade, exigindo uma experiência individual, separada dela. Tomé buscava contato com Jesus igual ao que tinha antes de sua morte; mas a adesão não se dá ao Jesus do passado, e sim ao do presente. O mesmo Jesus de antes se manifesta vivo na comunidade através de sua atuação nela e em cada um dos seus membros. Tomé não consegue o que buscava. Jesus revela-se a Tomé no interior da comunidade (dentro), após participar da experiência de todos. (Jo 20,26) Fora do círculo dos que o amam está o mundo, ao qual Jesus não se manifesta (Jo 14,22s). A experiência de Tomé não é modelo; Jesus lha concede para evitar que se perca um dos que o Pai lhe entregou. Tomé inverteu os termos: sem escutar os discípulos e sem perceber a nova realidade criada pelo Espírito, quer encontrar-se com Jesus; mas não se encontra Jesus a não ser na nova realidade de amor que existe na comunidade (Jo 1,17).

Todo discípulo, de qualquer época, tem que ver o Senhor, e essa visão realiza-se ao experimentar-se a vida que ele comunica. É a comunicação do Espírito que produz essa espécie de visão. A experiência perpetua-se na celebração eucarística, na qual os discípulos se assimilam a Jesus e recebem vida definitiva (Jo 6, 54). Esta experiência produz o conhecimento. O evangelho fica aberto para o futuro: “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20, 29) Crerão em virtude da mensagem dos discípulos, que continuarão manifestando no meio do mundo o amor de Jesus”. (Mateos, 1999.)

A Tomé lhe custa crê porque não está na comunidade. E a nós? Quando Tomé volta à comunidade deixa de ser incrédulo, para ser crente. Quando daremos nós esse passo? É Páscoa, é tempo de conversão, porque a conversão é um apelo constante ao cristão. A páscoa é também tempo de nos sentirmos Igreja, não devemos nos deixar envergonhar e nos amedrontar em ser Igreja, comunidade de irmãos que celebram e vivem com alegria a experiência de um Jesus que está vivo e no meio de nós, que acompanha nossas vidas e as enche de sua presença, que converte a vida cotidiana em um “kairós” permanente, em um acontecimento de salvação. Voltemos à comunidade, cada Domingo nos reunimos como Igreja, como comunidade cristã “nova”, a celebrar nossa fé no Senhor Ressuscitado. Reunimo-nos com a certeza de que ele está no meio de nós. Vimos para encontrar-nos com ele, e que ele seja o motor de nossa vida.

Que nesta Páscoa deixemos nossos individualismos de lado e optemos por ser homens e mulheres “novos”, uma humanidade “nova”, uma comunidade cristã “nova” à luz de Cristo Ressuscitado.

Bibliografia: Mateos, Juan. Barreto, Juan. O Evangelho de São João, Coleção Grande Comentário Bíblico. São Paulo, Paulus, 1999

Fonte: Paraibaonline
 
O conteúdo das informações neste artigo é de inteira responsabilidade do autor.
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